sexta-feira, 9 de outubro de 2026

RÚSSIA

 RÚSSIA

1

A aldeia afundou-se nos buracos da estrada,

As cabanas ficaram ocultas pela floresta.

Apenas se vê, nos montículos e nas depressões,

Como o céu se estende à volta.

Uivam no crepúsculo longo e invernal,

Os terríveis lobos dos campos áridos.

Pelos quintais, sob a geada que se derrete

Por cima das telhas, o ronco dos cavalos.

Como olhos de coruja, por entre os ramos,

No véu da nevasca as luzes espreitam.

E ali ficam, por trás das redes de carvalhos,

Como se fossem malignos espíritos da floresta, seus troncos.

Receberam-nos com o seu poder maligno,

De tal forma que, por onde quer que se olhe, há feiticeiros.

No frio cruel, no crepúsculo enevoado,

Penduram-se gelos nas bétulas.

2

Mas amo-te, pátria mansinha!

E porquê — não consigo desvendá-lo.

Alegre é a tua efémera alegria,

Com uma estrondosa canção na primavera, no prado.

Adoro, sobre o local de pastagem,

Ouvir à noite o zumbido dos mosquitos.

E quando os rapazes entoam a talyanka,

As raparigas saem para dançar junto às fogueiras.

Acendem-se, como groselhas pretas,

Os olhos de carvão sob as sobrancelhas em forma de ferradura.

Ai de ti, minha Rússia, querida pátria,

Doce descanso entre os ramos de seda.

3

Grasnaram os negros corvos:

Um vasto espaço para desgraças ameaçadoras.

O redemoinho agita a floresta em todas as direções,

A espuma dos lagos agita a savana.

Rugiu o trovão, a cúpula do céu rachou-se,

Nuvens rasgadas envolvem a floresta.

Em suspensórios de ouro leve

Balançaram as lamparinas dos céus.

Sob as janelas, os centuriões anunciaram

Aos milicianos que partissem para a guerra.

As mulheres da colónia soltaram risadas,

O choro rasgou o silêncio à volta.

Os pacíficos lavradores reuniram-se

Sem tristeza, sem queixas nem lágrimas,

Colocaram bolinhos com açúcar nas sacolas

E enfiaram-nos na carroça robusta.

Pela aldeia até aos limites mais altos,

O povo acompanhava-os em massa».

Eis onde estão, Rússia, os teus bravos rapazes,

Todo o teu apoio na hora da adversidade.

4

Tal noiva solitária, a Aldeia casou-se de esperar —

• Como estarão os meus queridos naquela terra distante?

Por que não nos dão notícias? —

Será que tinham sido mortos em alguma batalha?

No bosque, espalhavam-se aromas de incenso,

Ao vento, ecoavam os ruídos dos ossos.

E chegaram até eles, de forma inesperada e repentina,

Da aldeia distante, montes de notícias.

Tendo guardado a mensagem dos lavradores,

Partilharam-na com todos por carta.

Apressaram-se a pegar na carta dos seus,

Sentaram-se sob o salgueiro.

Reuniram-se em torno da Lúcia, a contadora de histórias,

Para saber das notícias dos seus entes queridos.

E, agachadas, choravam, ouvindo,

Os sucessos dos seus homens fortes.

5

Ah, campos meus, sulcos queridos,

Que belos sois na vossa tristeza! 􀅁

Amo estas cabanas frágeis

Com as mães grisalhas à espera.

Ajoelhar-me-ei junto às sandálias de casca de bétula,

A paz esteja convosco, ancinhos, foice e arado!

Adivinho, pelos olhares da noiva,

A sorte do noivo nas guerras.

:

Reconciliei-me com meus fracos pensamentos,

Quem me dera ser um arbusto junto à água.

Quero acreditar no melhor com as mulheres,

Segurando a vela da estrela da noite.

Desvendei os seus pensamentos incontáveis,

Nem o trovão nem a escuridão as assustarão.

Ao som das canções sagradas

A morte e a prisão não se atreverão a aparecer.


1914                   Sergei Esenin (Yesenin)