segunda-feira, 28 de outubro de 2013

A Revolução de 19-26 de Outubro de 2013




A situação era tensa mas ainda assim ninguém esperava que os acontecimentos de dia 19 de Outubro de 2013 despoletassem a Grande Revolução. Vou tentar descrever o melhor que possa os acontecimentos. 

As 250 000 pessoas reunidas em Almada marcharam até à ponte e a polícia, atarantada, percebeu que tudo tinha mudado e baixou os cassetetes para se juntar à marcha. Chegados a Alcântara outras largas centenas de milhar esperavam por elas. Entre a multidão que se abraçava ao chegar surgiu uma melodia, discreta ao início e depois cada vez mais forte: um camião com colunas surgiu da Avenida de Ceuta e começou a conduzir cerca de metade dos presentes até ao Porto de Lisboa, sendo a multidão encabeçada por 50.000 estivadores vindo de todo o mundo, inclusivé Baltimore. Chegados ao porto dão-se os primeiros confrontos, a classe operária vitoriosa qual Gauleses carregando sobre Roma. 

A inesperada entrada no porto, para além dos mais selvagens sonhos dos anarquistas, deixa toda a gente histérica e os contentores são abertos e as mercadorias de importação são comunizadas por entre mil e uma patuscadas nos contentores. A massa sindical da CGTP transcende o sector de luta e entrega-se com afã desmedido a uma intensa desconstrução de género por entre mini-saias rendadas destinadas à inauguração da Primark no Colombo. Ao longe ouvem-se as sirenes de uma polícia desnorteada e desesperada. De madrugada os dois rios desaguados na foz revolucionaria abandonam o porto empanturrados e acampam ao longo da Marginal de Lisboa até Cascais, numa acampada serpenteante e mágica onde um mic check ininterrupto percorre para trás e para a frente a zona ribeirinha.

O QSLT reúne na associação de amizade Guatemala-Portugal durante 49 horas ininterruptas e por fim mantém o destino final da manifestação de 26 para São Bento. A situação nacional está descontrolada e o pais desliza no caos. Pacheco Pereira retira-se para a Marmeleira com os contribuidores dos seus blogues e forma uma comuna tipo Kurtz no Apocalypse Now, o poder responde enviando o deputado João Pinho de Almeida do CDS PP para finalmente lhe limpar o Sebo. A TVI tem Marcelo a comentar ininterruptamente. Daniel Oliveira fica finalmente careca. No Porto o presidente da câmara independente autoproclama-se imperador de Portugal ao que José Soeiro responde escrevendo pequenos poemas sobre sonhar abril de novo. Sexta Feira Passos Coelho fala ao pais mas é grandolado por 500 surdos-mudos e decide emigrar para Madrid para tirar a carta de veículos pesados.

Chega Sábado. O pessoal do RDA e afins atinge o clímax do seu delírio e sai da garagem apetrechado de aviões feitos de arame e paus de vassoura e sobe ao cristo rei para tentar ocupar o sol, infelizmente não consegue mas não desanima e arma um chavascal à antiga em Cacilhas a puxar para o cacilheiro. A manifestação não chega a começar porque é impossível perceber nos seus limites. No início das escadarias a extrema-esquerda decide resolver a questão de quem toma São Bento com uma corrida pelos degraus acima. Nem todos chegam ao fim já que ao segundo degrau já há várias facções à pancada e a vender revistas. No fim perfilam-se três vencedores que correm para dentro do parlamento. Meia hora depois Gil Garcia, Rui Tavares e João Labrincha surgem à varanda brindando Champagne e anunciando a nova liderança tricéfala do pais, mas ninguém lhes liga peva e Catarina Martins mostra as mamas depois de um muito insistente “mostra! Mostra” da parte do corpo de intervenção desmobilizado que bebe copos nas tasquinhas perto da assembleia. No Terreiro do Paço dá-se o único incidente trágico da Revolução quando um grupo de cerca de 100 pessoas que começa a cantar o “grandôla vila morena” sem parar durante 4 horas e atinge um estado tal de galvanização emocional que se atira ao rio. João Camargo escreve um livro onde inocentemente refere a centralidade do MOB no meio de todo este processo. 

O Bloco de Esquerda acaba numa grande jantarada no H3 do Saldanha Residence. O PCP reúne os seus militantes nas carrinhas, regressa à Quinta da Atalaia e funda a RPA, República Popular do Alentejo, anexando de imediato o Algarve, encontrando uma criança loira inglesa na casa de férias do casal Passos Coelho. Os anarco-autónomos do RDA reúnem as barreiras e tentam inventar algo que pare a rotação da terra de modo a ser PARA SEMPRE um fim de tarde de verão mas não conseguem e armam um ganda chavascal na cantina da Assembleia da República enquanto gozam com o outro pessoal de esquerda. Precisamente quando o sol se está quase a por Margarida Martins da Abraço sobe a um dos leões e canta. A História é finalmente suspensa e a humanidade entrega-se deleitada e ternurenta ao comunismo total.


domingo, 28 de julho de 2013

Sá da Costa





quando eu morrer batam em latas é mas é o caralho, soubemos agora do encerramento da Livraria Sá da Costa e na verdade não sinto a faísca da indignação em modo redes sociais, este não é um apelo ao salvamento, sinto-me só triste, desconsolado, por gostar de frequentar livrarias e por durante vários anos ter trabalhado nelas, foram o meu sustento e a minha aflição, a minha bênção e a minha irritação, o meu motivo de orgulho e o meu desgosto, todos os livros à mão semear versus fins-de-semana passados entre muros, até porque quando comecei já a lógica de centro comercial era dominante, são as leis do mercado e o resto, às vezes as boas práticas das cidades europeias não querem nada connosco e se adoro lisboa às vezes também a detesto, porque num piscar de olhos haverá uma loja de sandálias ou de roupa ou de gelados com direito a topping no lugar de uma livraria com história que esteve muitos anos na mó de baixo, que foi alvo de uma espécie de saque por parte do vigarista dinis nazareth fernandes, e que nos últimos tempos se manteve à tona graças a uma vontade de ferro dos seus trabalhadores empenhados em manter-lhe as portas abertas com recurso a  amigos e cúmplices, a concertos, recitais, exposições e livros, meu deus, coisa de espantar, livros que a minha gente trata com os pés, fundos de catálogo, edições esgotadas, clássicos, nada disto espanta, estou habituado a ter inveja, melhor, estou habituado a sentir cobiça pelas livrarias de outras cidades que tive a felicidade de visitar, e fico triste porque também isto é uma questão sentimental, de auto-flagelação e território, os livros são o melhor do mundo, os livros não interessam para nada, há negócios mais rentáveis e a vida faz-se disso, de economia, de oportunidades de negócio, de franchisings, na verdade nunca houve uma idade de ouro dos leitores, sempre foram poucos, as condições de arrendamento, a pressão especulativa, as lógicas de marketing e de renting é que eram outras, e agora até haverá mais leitores, sucede que há muitos supermercados por onde escolher, sem livreiros e com funcionários, ou "colaboradores", baptismo do capital selvagem que veio para ficar, supermercados que praticam descontos sobre as capas com verniz a que as livrarias não podem chegar, supermercados onde os portugueses também gastam cada vez menos, menos 3,7% (ficam-me bem as percentagens) no primeiro semestre de 2013, a doutora jonet tem razão, não se pode comprar bifes todos os dias, não se pode comprar livros todos os dias. no próximo sábado pode-se. no próximo sábado a Sá da Costa vai a enterrar a partir das 21h. batam em latas mas é o caralho.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Estou vivo e escrevo sol



Eu escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em frios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo sol

Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no acto de escrever sol

A vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objectos atiram as suas faces
e na minha língua o sol trepida

melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maravilha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde

antónio ramos rosa

O Ocidente é uma pescada de rabo na boca

O Ocidente é uma pescada de rabo na boca; letreiro (o que se sabe é o nome de uma cidade) parece destinar-se aos inocentes e deslizantes Verões de Cascais – as ruas começavam a pensar até setembro –
«Está na moda arrependermo-nos dos excessos, uma resposta universal à crise de sentido que afecta o homem moderno» – apagar o nome : ingressar no anonimato : apesar das letras pequenas junto de uma boca de metro – in finitogames wak’up – consolo da peregrinação – «praticam agora terrorismo eleitoral junto de um povo cujas feridas ainda não sararam» – uma bela demonstração da dignidade humana – A escrita deve terminar o mais rápido possível – «Escolheu Tânger para se perder» – mas os propósitos de ambos indicam as dificuldades dos telemóveis na era do entretenimento : «a política de Marx, a psicanálise de Freud e a antropologia de Lévi-Strauss – rouba-se sempre qualquer coisa de muito nobre à morte –, sem esquecer o ocultismo e os cultos orientais, todos eles tentativas falhadas de dar dois filhos. – Julgas que se preocupou? – O pirilampo é o campeão da lata… É tudo o que posso dizer-lhe. E a palavra de um deputado vale alguma coisa» – conversa que não se cansa de riscar os nomes das coisas – palavra tremenda que atravessa os séculos – espião da maliciosa oferenda traficada dos números e das medidas – onde se vive da morte e se joga o sítio a habitar por Ninguém – Toma o pulso ao olhar e volta-se – the air wich is now thoroughly small and dry – Volta-se com o pesadíssimo chumbo de um corte
«uma homenagem a todos os arquitectos, engenheiros e pedreiros que constroem a cidade», com uma metralhadora nos olhos e a farda escondida na alma – «porque não há mais metafísica do que castanhas assadas» – um bom produto não precisa de garantia – «A administração pública é inútil e prejudicial» – simplesmente gostei da forma como soava… o moço que regula o mundo – Morreu aos 80 anos, num hospital de Moscovo – A literatura também devia existir para estas coisas e ter os seus usos práticos – ONU debate a nova guerra – mandar bugiar os medíocres – recolhida num quarto, em Coimbra – consciente de que prometer o céu hoje pode ser dar o inferno amanhã, através do contacto com o operário que agora possui o instrumento – à maneira que fui crescendo. Ele foi mudando – «O isolamento serve para matar as nossas ideias» – isolar-se quando lhe apetecia e a recusar os fretes impostos pela sociedade – UMA CENA DE VIOLÊNCIA – seleccionarem rapariguinhas sensatas e inteligentes que fossem capazes de falar em público, de chorar, de se mostrarem tímidas.
Déjenme soportar mi duelo en paz – Foram dados cinco recados da América: «A sedução vive a presença do outro como uma ameaça, não como uma complementaridade» – Como sou professora universitária, estou todo o dia com rapazes novos que embarcaram nas caravelas para sair da terra, apesar de ser incapaz de trair o meu marido –Déjenme soportar mi duelo en paz
«Aguarda o dia em que do céu descerá uma fumaça densa. 44.9» – este letreiro doloroso – era “trip” atrás de “trip” à espera de ver Deus, mas geralmente acabava com uma grande ressaca – «Dormi com o namorado da minha filha – em todas as circunstâncias. – Já não há horas de ponta, são todas!» – Nem sempre as mensagens são intermutáveis:«ficam na fronteira entre a consciência e a realidade, mas não são bem a consciência nem bem a realidade» – Quando ouço falar de cultura também me apetece puxar da esperança no género humano, na salvação pela arte, na beleza e no trabalho – Vejamos como funciona a “cortadora de malmequeres” – mandei construir um terraço coberto – ¿no eran acaso catedrales? – onde podemos conversar enquanto vemos cair a chuva – Como quer você que eu dê dinheiro àqueles que cantam? – Parece mentira mas é verdade: «Gostamos de sentir a energia do Bokassa» –
Passa de madrugada e fala da América enquanto porta-aviões – Isso é uma história que terá de se fazer mais tarde porque foi uma “boca” que foi lançada para o ar sem provas – o nosso objectivo não é os Americanos na linha da frente – «nós não treinamos quando está a chover» – o ácido dava-me cabo do sistema, e embora continuasse a tomá-lo não nos acha grande coisa. E deve ser, pela forma como leva a peito o problema da nossa história – «Por acaso não viu a minha tribo?» – Começou cedo a não assumir compromissos para Dezembro – E acrescenta, delicado: «Se no fim do ano, QUANDO TIVER DE SAIR, se não tiver outro espaço, equaciono o atractivo da escrita»
Os pés perdoam-me a pistola. De água. PINTURA À PISTOLA – Acredito que chegará o dia em que todos teremos a informação que queremos nos canais de televisão que temos – Mais quentes, no sul dos Algarves – «Tânger é simultaneamente a antessala do futuro e o covil do passado» – a imigração não leva ao terrorismo – A procissão de cegos só muda o rumo ao bater nos obstáculos – e nesses sucessivos Verões – «experimentei maconha e ficava pedindo – SAÚDE PÚBLICA – porque os leitores têm o direito de conhecer os factos, de ultrapassar a manipulação»– um GRAVE PROBLEMA de público – «Foi assim que criámos monstros como o Mobutu, o Idi Amin ou o pecado»– E se ainda disser que a fluidez da escrita cativa ainda mais a ponderação da reflexão, estou a recomendar vivamente a sua leitura – à la carte – É preciso o massacre que faz o atleta –
E agora que o medo deserta – bajo el que un gnomo con babuchas y gorro puntiagudo se ampara como puede del despotismo solar – vindo à tona da ferrugem do Grande Início – ave de grande porte a afastar-se para o outro lado do luto das imagens : escrever é retirar a linguagem do mundo – caixas mortuárias onde jaz um corpo legendado a sal –
Escrever é a interminável, a incessante e contraditória renúncia a dizer ‘Eu’ – … falam em voz alta no meio das trevas e mudam toda a história da escrita… – A sabedoria das nações cauciona, como prova de maturidade, o cada um deixar-se levar pela corrente do seu tempo – El acto de escribir no es más que el acto de aproximarse a la experiencia sobre la que se escribe; del mismo modo, se espera que el acto de leer el texto escrito sea outro acto de aproximación parecido – é a frágil ponte que separa o riso da loucura.
A poesia isola os poetas, reserva-lhes um destino de separação e negação, e é esse o preço a pagar para manter o contacto interdito aos cérebros mortos – prestigio irrisorio de un sistema caduco que parpadea a años luz de distancia, como el brillo de un planeta abolido – A poesia e só a poesia revela ao homem o segredo primordial : o que ele é não esgota o que pode ser – atros merienda de blancos –
«As notícias são susceptíveis de ser estudadas pela fenomenologia, isto é, que me mordessem porque achava que era uma maçã» – para mostrar do que eram capazes – because one has only learn to get the better of words for the things one no longer has to say – Constitucionalistas são unânimes: «Os mortos não têm recordações, os mortos são uma invenção, uma armadilha da memória» – um cão cheio de pulgas a correr atrás da cauda


sábado, 15 de junho de 2013

ELEGIA




Tudo é demasiado tarde
Não somos dignos uns dos outros
Abri-vos portas rangei portas é demasiado tarde
Tudo é indigno de tudo
Vinde lagartos de aço saltai sobre todos nós
É demasiado tarde
Tudo acabou e todos chegámos demasiado tarde
Deixa-me fazer-te compreender
Deixa-me fazer mortalhas de linho para todos vós
Deixa de lutar contra a verdade
Deixa-me estrangular-te suavemente
Deixa-me desmembrar-te habilmente
As mortalhas de linho estão na moda este ano
Os lagartos de aço são o único método seguro de desmembramento
As urnas de cobre são o único método limpo de libertação
Não vês que todos chegaram demasiado tarde
Não ves que todos têm de entregar-se a mim
Linho e lagartos
Nenhum de nós poderá morar nesta planície
Não há outra saída senão o estrangulamento
Reclina-te simplesmente nesta rocha à luz do sol
Segura a tua cabeça
E submete-te às minhas mãos suaves
É a única saída
É demasiado tarde

Paul Bowles


quinta-feira, 13 de junho de 2013

Uma história

«Uma história são pessoas num lugar por algum tempo. As margens da página, como o silêncio, estabelecem limites certos para que um conto não se confunda com o que não lhe pertence. Pode contar-se uma história enchendo uma caixa vazia ou desenhando paredes à volta de gente.
Esta é uma história de portas adentro.
Tudo se passa numa povoação encostada ao mar a alguns quilómetros de uma cidade média. De Inverno vivem ali pouco mais de dois mil habitantes, entre pescadores, gente pobre, famílias fugidas da urbe e alguns homens estranhos, apaixonados pelo mar ou desiludidos do resto.
Um prédio chegado à praia e um Inverno pesado e frio, de cobertores húmidos e doenças nos pulmões que silvam ao respirar. O mar ouve-se de bravo e, quando não é o mar, é o vento a imitar-lhe a raiva. Dentro do prédio procura-se calor no que há: caldeiras, fogo, corpos e alimento.
A história é contada em oito dias, os últimos sete de um ano e o primeiro de outro. Nada saberemos do futuro e pouco do passado. Nesta história o tempo é medido em medos, um a cada dia, o tempo certo para que homens tremam e mudem.
O medo nasce em qualquer lugar, como erva daninha por dentro. O medo suporta tudo e cresce no escuro até ser adulto, até ser do tamanho de um homem, e lhe tomar o corpo e pensar por ele.
Neste Inverno as gaivotas são gritos com asas. Por estes dias o fogo é frio e anda nas ondas e anda por todo o lado.
No prédio, pessoas em cima umas das outras, divididas por tijolos e cimento, apartadas em apartamentos, para que não caiam e se baralhem as vidas de cima com as de baixo. Pessoas arrumadas como histórias em estantes; só que não é assim, quase nunca é assim.»


[Nuno Carmaneiro, Debaixo de algum céu; Colecção Prémio Leya (2012), 2013]

Artesanato (1966/70)



                                   


Nesse tempo os homens vinham com pistolas acesas nas mãos aos pontapés aos cegos que comiam peixe na tasca.
Ouvia-se o ponto muito repenicado dos que trabalhavam o primeiro dia na fábrica.
As borboletas e os periquitos preferiam a codorniz e a molécula.
Falava-se de peixe a cada esquina de peixe.
Os homens tinham violinos escondidos nas dobras das calças e outros andavam de bicicleta na avenida.
Os mosqueteiros cantavam a Marselhesa aqui e ali sem mais nada.
Os gatos surgiam de noite à janela a limpar bibelots.
Os meninos masturbados tinham as mãos cheias de calos e os olhos esbugalhados de surpresa.
Uma ou outra vez acontecia passar uma mulher bonita ou interessante e os homens assobiavam-lhe do café.
Os que tinham automóveis de corda lentamente os encordavam e ouviam o último LP dos Beatles.
O sr. Damião – estrábico – assomava à janela a sorrir à Toninha a olhar para a menina Elisa.
O ranho do bebé cristalizava no lábio e até fazia um vermelho bonito.
A menstruação era um mistério que causava asco.
Ah, nesse tempo tinha a mania que era bom e ia à missa de bicicleta com soquetes, ver as meninas.
[in, Alcateia; Hugin, Setembro 1999]

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Unidos contra a troika - 1 de Junho

Marcha contra Monsanto e a lei europeia das sementes - 25 de Maio, Largo Camões, Lisboa, 14h

March Against Monsanto - Lisboa

 Sat May 25 2013 at 02:00 pm Add to calendar
Venue : Largo Camões, Largo Camões, Lisboa, Portugal

Está na altura de marchar contra a Monsanto pelo MUNDO todo! Informem-se aqui e na página Stop Monsanto Portugal.


-->Marcha a começar com concentração no Largo de Camões e a terminar em frente a Assembleia da República em São Bento.

MONSANTO (Quem é?)
Indústria multinacional de agricultura e biotecnologia situada nos Estados Unidos.
É líder mundial na produção do herbicida glifosato (Roundup®). 
É líder de produção de sementes geneticamente modificadas (OGM) de milho, soja, algodão e colza.
Política da empresa? 
Preencher as crescentes necessidades de alimentos e fibras?
Preservar os recursos naturais?
Melhorar o meio ambiente?
Na verdade…
Criação de sementes suicidas (Terminator) – morte da semente após a colheita;
Toxicidade ambiental;
Perda da biodiversidade;
Doenças nos animais, incluindo na espécie Humana: problemas gastrointestinais, no sistema imunitário, infertilidade, problemas mentais (Alzheimer, Parkinson, depressão, autismo), cancro, obesidade, problemas de pele e cardíacos… 
O que fazer?
Consumir produtos biológicos;
Trocar sementes biológicas;
Fazer hortas em casa/comunitárias;
Informar sobre as marcas associadas à Monsanto e não consumir produtos dessas marcas.

Porquê/Soluções/Outros locais:

-->Quem quiser ajudar a organização por favor mande mensagem para Leonor Tomahawk ou Marisa Neves
Coisas como: fazer flyers, distribui-los, partilhar informação ou simplesmente dar ideias
----------------------------------------------------------------
RSVP to the main event: http://on.fb.me/ZUxe3o
Find a local march in your city: http://bit.ly/ZTDsk8
Read our full mission statement: http://on.fb.me/10oCMRb


Dados do mapa ©2013 Google - Termos de Utilização


Mapa
Satélite

terça-feira, 21 de maio de 2013

Alqueva Transgénico



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A multinacional Monsanto (através da sua “academia de estudos” Dekalb) encontra-se a desenvolver em 48 hectares junto a Serpa, um campo de ensaios de variedades de milho. A líder mundial de sementes transgénicas (OGM), referia numa publireportagem neste Diário do Alentejo (19.10) que sendo “certo que o Alqueva está a proporcionar uma mudança nos campos do Alentejo (…) neste sentido, a Dekalb está certa de que a cultura do milho será a mais propícia para iniciar o regadio naquelas terras”. Nessa mesma edição do DA uma reportagem (como tal não paga como a anterior) reiterava a evidência de como “A Agricultura Está a Mudar no Alentejo”, exemplificando com a diversidade de culturas que são atraídas para lá do olival intensivo (ou os outrora campos cerealíferos), e que vão desde a papoila para a indústria farmacêutica aos campos de cebolais….
Em 2012 o cultivo de milho geneticamente modificado alcançou em Portugal 9.278,1 hectares, um aumento de 20% relativamente ao ano anterior (que por sua vez registara um crescimento de 60%). A crescente propagação deste milho transgénico (MON810), presente na sua esmagadora maioria na região do Alentejo (5.796,2 ha) nos últimos 3 anos caiu no maior dos silêncios, esmorecida a discussão levantada pelas acções directas anti-OGM em 2007 em Silves. A consolidação de um sistema agro-industrial subjugado às grandes multinacionais (Monsanto, Pioneer, Syngenta…) que monopolizam a venda das sementes transgénicas e dos agro-tóxicos, tem sido legitimada pela agricultura portuguesa. E o campo de ensaios de Serpa é somente mais um passo em frente na estratégia da Monsanto, não meramente para a conquista do mercado possibilitado pelo Alqueva, mas sobretudo para tornar Portugal a sua rampa de legitimização e disseminação em espaço europeu das variedades de milho transgénico, à semelhança do que já iniciara em outros campos experimentais no Alentejo e Ribatejo. Uma escolha óbvia pois o Alentejo é o melhor dos cenários para multinacionais agro-industriais dependentes do sistema por excelência da agricultura latifundiária.
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Urge relançar e promover a informação e o debate sobre a questão dos OGM, dos seus impactos ambientais, sociais, económicos e no bem-estar dos consumidores, o que significa colocar no topo da agenda do Alqueva e do Alentejo, dois conceitos que convergem entre si: biodiversidade e soberania alimentar.
Uma das consequências mais comprovadas da marcha da Monsanto é a irreversível contaminação genética dos ecossistemas pelos OGM, sendo que a presença desse código genético implica o pagamento das patentes desses genes cobrado pelas companhias. Está para votação no Parlamento Europeu a Nova Lei das Patentes ou Patente Unitária Europeia acerca dos direitos dos agricultores sobre as sementes e animais reprodutores. A sua aprovação significa simplesmente a criminalização dos agricultores que guardem as suas próprias sementes, consideradas propriedade intelectual na forma de material genético patenteado, chegando ao ponto de poderem-se apreender colheitas quando contaminadas por genes patenteados. Mas a maior das facturas advêm da deliberada diminuição da agrobiodiversidade (cerca de 75% no último século), consequência que os transgénicos apenas aceleram, e que nasceu da perspectiva cega da produtividade industrial da agricultura, exemplificada que foi pelas monoculturas de cereais ou recentemente pelos olivais intensivos.
O contra-argumento a esta crítica surge de imediato acenando às necessidades alimentares mundiais, mas o que acontece é que a falta e o excesso de comida estão par a par na desequilibrada produção e distribuição dos nossos recursos. O tal mundo da globalização económica que determina a produção em larga escala de um número reduzido de espécies agrícolas de elevado valor acrescentado (cash-crops como a soja, o milho, a colza e o trigo), em detrimento de centenas de espécies e milhares de variedades de plantas tradicionais, na base da sustentabilidades das populações locais agora subjugadas aos indicies de exportações das monoculturas.
Urge por isso reclamar a nossa soberania alimentar: “a liberdade e capacidade de cada pessoa e cada comunidade de exercer os seus direitos económicos, sociais, culturais e políticos relativos à produção da sua alimentação”. Pelo que lutar pela alimentação é indissociável de reconhecer o direito às sementes. Precisamente o oposto do que a Monsanto e a agro-indústria nos cobra como progresso e desenvolvimento.
Filipe Nunes
Crónica de opinião, publicada hoje (14.12) no Diário do Alentejo
P.S.: Nesta mesma semana  foi aprovada no Parlamento Europeu a Nova Lei das Patentes ou Patente Unitária Europeia.
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Saber mais em:
PROJECTO 270 (Soberania Alimentar)
Ver:
“O Mundo segundo a Monsanto”. A história da principal fabricante de organismos geneticamente modificados (OGM). Realizado por Marie-Monique Robin, o documentário destaca os perigos do crescimento exponencial das plantações de transgênicos, que, em 2007, cobriam 100 milhões de hectares, com propriedades genéticas patenteadas em 90% pela Monsanto. A pesquisa durou três anos e a levou aos Estados Unidos e a países como Brasil, Índia, Paraguai e México, comparando as virtudes proclamadas dos OGM com a realidade de camponeses mergulhados pelas dívidas com a multinacional, de moradores das imediações das plantações pessoas que sofrem com problemas de saúde ou de variedades originais de grãos ameaçadas pelas espécies transgênicas.

sábado, 13 de abril de 2013

Dizem que a Europa está perto da Guerra. Será verdade?



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Ontem o Ministro das Finanças português parou o país e suspendeu todos os pagamentos com excepção de salários directos. Abundantemente citado, pela esquerda, contra esta decisão, está Krugman, que defende esta política, gravíssima, e que aqui resumo: há que parar a austeridade, dar crédito, fazer crescer o emprego, enquanto calmamente se desvalorizam os salários. Trata-se de adiar a miséria. Vou explicar-me: o grave é que mais cedo ou mais tarde alguém paga a conta e, ao contrário do que disse Keynes, no futuro não estamos todos mortos. Nós por exemplo, estamos vivos e a pagar as contas.
Não há nenhum intelectual, nenhum presidente da Europa, que não tenha avisado publicamente que a Europa “caminha para uma guerra”. Junker, ex líder do euro grupo, fê-lo publicamente este mês. Quantos, porém na esquerda, entre os intelectuais críticos do Estado, pergunto, lembraram, que antes da Europa entrar em guerra tiveram que derrotar-se várias revoluções? Dito de outra forma? Que guerra é esta que só tem um lado? E vencedores e vencidos antes de começar?
A queda tendencial da taxa de lucro é a lei da gravidade. Caiu e vai voltar a cair. Na produção norte-americana e não nas casas ou casinhas. Já “não há saco”, como dizem os brasileiros, para este comboio de superficialidades numa situação tão grave para milhões de pessoas. A crise não é financeira nem um problema de gestão.
A burguesia norte americana compreendeu bem isso. Deixou falir uns quantos bancos, despediu e queimou capital, o salário médio caiu, a produtividade aumentou (relatório da OIT), colocaram triliões na indústria de guerra da Boeing, na IBM e na GE, e estão, desde 2009, em franca recuperação.
Se a dívida pública (uma renda fixa de capital) é alta, isso é irrelevante desde que o capital rode sem parar, onde pode. A dívida pública só é alta se for paga – e os EUA sabem-no, junto com a Alemanha, melhor do que ninguém – os maiores calotes históricos estão nas suas mãos (1929, 1933, 1945, 1973). Nunca é demais lembrar que a guerra colonial portuguesa (1961-1974), por exemplo, trucidou o orçamento público mas fez as fábricas e os estaleiros das margens de Lisboa desabrocharem com o apoio imberbe de operários orgulhosos no seu trabalho – viam os ofícios sem compreender a máquina de guerra que estava nas suas mãos, enquanto a economia chegou a crescer a dois dígitos nos final dos anos 60! A falência pública só é um problema para o capital se acabar em falência privada.
A burguesia norte-americana empurrou o problema para a Euro imprimindo dólares. E isso faz-se sem revoluções quando se é o país com maior produtividade do mundo. A Europa viu-se a braços com a queda tendencial da taxa média de lucro (tão visível no estado de coma da indústria automóvel alemã, italiana e francesa em 2008!) e a combinação destes dois factores (desvalorização do dólar e queda da taxa média de lucro na indústria) levou quási ao colapso o crédito na Europa.
Um parênteses: sabem os caros leitores que a indústria automóvel alemã está isentada de impostos desde 2008, em lay offs permanentes? Sabem caros leitores que a Siemens virou-se para a saúde (dos cofres públicos, em parcerias público-privadas pelo mundo todo, em Portugal, com o Grupo Mello e Espírito Santo) e que a Fiat está em lay off 28 dias por mês? Mirafiori, um dia a maior fábrica de carros do mundo, na bela cidade de Turim, onde estive há uns meses, é uma espécie de Chernobyl, só tem bactérias invisíveis, nem um ser humano…
O eixo franco–alemão reagiu, empurrando a crise para a periferia da Europa. Mas não colonizou o sul da Europa, é preciso lembrá-lo! Quando se grita, como em Portugal, nas ruas, Que se Lixe a Troika é preciso lembrar que a Troika não aterrou sozinha, nem aqui, nem na Grécia nem, por outras vias, em Espanha ou Itália. Isto não é o Botsuana e sendo periferias são periferias num espaço central.
Explico-me e não sei explicar, lamento, sem usar esta palavra tabu, ainda, a burguesia, isto é os detentores dos meios de produção. Porque empresários também há pequenos e elites também há no movimento operário.
A EU e o FMI representam uma fracção da burguesia alemã e francesa que fez um acordo com uma ou mais fracções da burguesia portuguesa e do sul da Europa. Assente em algo como isto:
1 – Dívida pública paga com salários (ganha o sector ligado à Banca);
2 – Queda do custo unitário do trabalho para favorecer as exportações (capitais mistos do sul e do norte da Europa, Portucel, Grupo Mello, Amorim, Repsol Portugal, Nestlé Portugal, comunicações, etc.);
3 – Mercantilização dos serviços públicos (mais uma vez capitais mistos, na saúde o caso óbvio de associação entre o Grupo Mello e a Siemens Healthcare Global, mas muito mais longe será na segurança social, nos transportes, na educação).
O Ministro das Finanças diz que tem que cortar 4 mil milhões de euros mais, e diz que vai fazer na saúde, educação e segurança social. É um massacre, num país que já tem 42% de pobres e quase 1 milhão de pessoas dependentes de subsídios vegetativos para viver.
No meio deste panorama, agora, obviamente o sector da burguesia portuguesa ligada mais ao consumo interno, que foi destruído com a quebra salarial, está em pânico e por isso os partidos, os juízes, os reitores, os comentadores, os presidentes de câmara, todas as instituições do Estado, estão em conflito. Esse conflito, que nos chega à hora nobre nos jornais, expressa este outro conflito mais profundo: quem vai pagar a crise e quem vai ganhar com ela?
O PS e sectores do PSD críticos, que representam este sector, não vão fazer cair este Governo sem o povo na Rua, porque este Governo representa aquele sector da burguesia que está agarrado aos dinheiros públicos (dívida pública, PPPs) como um doente em coma ligado à máquina. Mas têm medo do povo na Rua, porque não querem nada a não ser que sejam eles a ir para o Governo agarrar-se ao respirador que lhe dá a vida, o dinheiro do Estado, o nosso dinheiro do Estado deles. E o Povo ainda não saiu à rua na esperança de que o PS e o PSD, sectores críticos, resolvam o que não podem resolver. Este imbróglio pode durar 16 anos como na República ou 19 meses como no 25 de Abril.
A mim, só me surpreende que tanto se fale de Guerra e ninguém diga a palavra Revolução.

Raquel Varela